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| Biodiversidade |

Vírus ameaça as populações de anfíbios na Serra da Estrela

Gonçalo M. Rosa
Biólogo
Institute of Zoology, Zoological Society of London, UK
Centre for Ecology, Evolution and Environmental Changes (CE3C)
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa


  Triturus marmoratus

2017-03-15

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Uma nova estirpe de vírus está a causar a morte em massa de várias espécies de anfíbios na Serra da Estrela.  Este vírus emergente também já foi detetado noutras partes de Espanha e da Europa e representa um novo e urgente desafio à conservação dos anfíbios.

Fotografias: Gonçalo M.Rosa

Investigador Gonçalo M. Rosa

Já não é a primeira vez que os anfíbios da Serra da Estrela causam preocupação. Em 2009 foram encontradas centenas de sapos-parteiro (Alytes obstetricans) mortos numa das lagoas do Parque Natural. A descoberta deu origem a um estudo de monitorização que se mantém até hoje, liderado por Gonçalo M. Rosa, investigador do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, DICE (Universidade de Kent) e ZSL (ambos no Reino Unido) e antigo aluno da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. As conclusões deste estudo determinaram tratar-se de uma infecção por quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis), um fungo microscópico que afeta as populações de sapo-parteiro. Tratou-se do primeiro caso de declínio de anfíbios em Portugal associado a uma doença. Em poucos anos, o sapo-parteiro desapareceu de quase 70% dos pontos onde habitava.

Girino de Alytes obstetricans (sapo-parteiro) que morreu com ranavirose.

 

Girinos mortos de Alytes obstetricans (sapo-parteiro)
e Bufo spinosus (sapo-comum), co-infectados com quitrídio e ranavírus.

Mas no outono de 2011 surgiu um estranho episódio de mortalidade que levantou uma série de novas questões: um evento que afetou não só os sapos-parteiro como todas as outras espécies de anfíbios que habitavam um charco perto da vila de Folgosinho. O episódio contrastou com todos os padrões de mortalidade até então associados à quitridiomicose na Península Ibérica e na Europa, e os testes realizados aos animais mortos confirmaram que não se tratava de infecção por quitrídio. Uma nova estirpe de ranavírus foi então detetada em todas as espécies analisadas1.

“Os vírus do género Ranavirus encontram-se um pouco por todo o mundo, sendo capazes de infetar vários grupos de animais, desde peixes a répteis e anfíbios. Mas diferentes estirpes têm diferentes graus de virulência, e aquele que circula na Serra da Estrela pertence a um grupo hiper-virulento chamado CMTV-Ranavirus”, explica Gonçalo M. Rosa acrescentando que  “esta nova estirpe tem sido responsável pela morte anual em massa de várias espécies de anfíbios, semelhante ao que foi registado no norte de Espanha”.

Triturus marmoratus (tritão-marmoreado) infectado com ranavirose

Enquanto que os efeitos do quitrídio continuam a estar limitados a altitudes elevadas e a uma única espécie, o ranavírus revela ser altamente virulento em múltiplas espécies e estágios de vida, e a diferentes altitudes. Uma das espécies mais afetadas foi o tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai): em 2014 apenas meia dúzia de indivíduos foram encontrados num charco, contrastando com os quase 230 observados antes do primeiro surto em 2011.

Embora o estudo tenha decorrido em Portugal, este grupo de ranavírus emergentes foi também já registado noutras partes de Espanha e da Europa, provocando declínios e alterando a composição e a estrutura das populações de anfíbios. Estes resultados vêm alterar o paradigma atual, segundo o qual o quitrídio é apontado como o principal patógeno associado à crise dos anfíbios. “É verdade que o quitrídio tem estado associado a mortalidades e declínios severos na Europa, mas num muito reduzido número de espécies e populações, como o sapo-parteiro nas zonas altas da Serra da Estrela e na Serra de Guadarrama, em Espanha. Esta estirpe de ranavírus tem o potencial de afetar virtualmente todas as espécies nos sistemas em que o detetamos”, acrescenta Gonçalo M. Rosa mencionando ainda que  não encontraram evidências significativas de que a pré-existência de quitrídios estivesse associada à emergência de ranavírus.

Trata-se de um desafio grave e urgente para a conservação dos anfíbios. Atualmente é possível tratar em laboratório casos de infeção com quitrídio, mas pouco se sabe ainda sobre este grupo de ranavírus. “Não sabemos como tratar indivíduos com ranavirose nem como mitigar ainda o problema no campo”, alerta Gonçalo M. Rosa concluindo que a investigação continua e, pela primeira vez, foram detetados casos de presença do vírus num grupo reduzido de charcos em que não se registou mortalidade até ao momento.

Rosa, G.M., Sabino-Pinto, J., Laurentino, T.G., Martel, A., Pasmans, F., Rebelo, R., Griffiths, R.A., Stohr, A.C., Marschang, R.E., Price, S.J., Garner, T.W.J, Bosch, J. (2017) Impact of asynchronous emergence of two lethal pathogens on amphibian assemblages. Scientific Reports https://doi.org/10.1038/srep43260

 

1O prefixo rana – latim para rã – vem do facto de o primeiro ranavírus ter sido isolado a partir da rã leopardo do norte (Lithobates pipiens), nos anos 1960s.

 

  #anfíbios  #estrela  #sapo-parteiro