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| Biodiversidade |

Perseguição à fauna selvagem: como…, porquê? e porque não! (Parte I)

Liliana Barosa
Bióloga
Colaboradora voluntária da Associação ALDEIA


  Raposa (Vulpes vulpes) apreendida em cativeiro. Fotografia: CERVAS/ALDEIA

2017-04-09

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Parte I (este artigo continua no dia 13/04/2017)

 

 

Quando se trabalha em educação ambiental associada à recuperação de fauna selvagem, existem algumas perguntas-chave que gostamos de colocar aos miúdos. Uma delas é “o que é que pode acontecer a um animal selvagem que faça com que ele precise de ser tratado num centro de recuperação?” e, pela minha experiência, a maioria das respostas é “ser atropelado” e “levar um tiro”. Isto demonstra-nos, a nós “crescidos”, que até as crianças têm a plena noção de que a grande maioria das causas de ameaça à fauna selvagem são factores antropogénicos, uns que acontecem “sem querer”, consequentes das nossas necessidades, e outros nitidamente propositados, consequentes da nossa vontade…

 

Açor (Accipiter gentilis) juvenil apreendido em cativeiro, com penas de voo cortadas. Fotografia: Artur Vaz Oliveira, CERVAS/ALDEIA

Os animais selvagens que ocorrem em Portugal estão sujeitos a diversos factores de ameaça mas, dependendo da sua espécie, do seu tamanho, abundância, hábitos alimentares, requisitos de habitat ou até mesmo do modo como são vistos pelos seres humanos, alguns são mais vulneráveis e perseguidos do que outros: o conflito entre o Ser Humano e os restantes animais é algo que remonta ao princípio da existência da nossa espécie, numa luta – umas vezes mais, outras vezes menos – justa e contínua pela sobrevivência do mais forte.

No entanto, ao longo dos tempos, as razões para tais conflitos e os modos de serem “resolvidos” têm sofrido alterações que ultrapassam o limite do natural, do aceitável e até da legalidade, chegando mesmo alguns casos a roçar o inacreditável e a barbaridade. Por razões económicas, sociais, culturais (recordem-se os vários mitos existentes) ou meramente por pura maldade, a fauna que nos rodeia – e que tão essencial é para a manutenção do equilíbrio do ecossistema do qual tanto dependemos – é diária e directamente perseguida através do abate a tiro, do uso de venenos, e da captura e do cativeiro ilegais, muitas vezes com vista à sua comercialização, também ela fora do aceite pela legislação portuguesa.

 

Lobo-ibérico abatido a tiro no Parque Nacional Peneda-Gerês:
Bióloga alerta que este “é o segundo caso de morte de um lobo-ibérico por causas humanas em menos de um ano na mesma reserva”.

LUSA, 05/11/2013 – 17:25

Em Novembro passado morreram em Idanha-a-Nova 36 grifos, três abutres-pretos e três milhafres-reais por causa de venenos.

LUSA, 27/04/2004 – 17:27

 

ABATE A TIRO & USO DE VENENOS

Seria completamente injusta e incorrecta se dissesse que não existem ataques de animais selvagens a animais domésticos ou se afirmasse que os predadores não se alimentam das suas presas naturais, algumas delas também presas do bicho Homem na actividade cinegética. Mas também me cabe defender alguns argumentos “ecológicos”:

1 – muitos dos animais selvagens recorrem actualmente aos animais domésticos como alimento porque (mas não só) o Ser Humano reduziu (ou, em alguns casos, exterminou) aquelas que eram as suas presas naturais desde sempre;

2 – os animais selvagens, apesar de muito astutos, terão maiores dificuldades em atacar animais domésticos se estes estiverem devidamente protegidos (com recurso a cães de gado, por exemplo);

3 – no que toca a presas selvagens, e por uma questão de poupança de energia e aumento da relação “custo-benefício”, os predadores tendem a caçar os animais mais fragilizados, doentes ou feridos, o que contribui para o fortalecimento das populações de presas selvagens por sobrevivência e reprodução dos indivíduos mais saudáveis;

4 – o Homem tende a ocupar o habitat natural destes animais, muitas vezes encurralando espécies gregárias e territoriais a redutos muito reduzidos de áreas de caça favoráveis.

 

Raposa (Vulpes vulpes) vítima de envenenamento. Fotografia: CERVAS/ALDEIA

No entanto, mesmo tendo todos estes considerandos bem presentes, compreendo plenamente a angústia de um pastor que veja o seu rebanho, o seu sustento…, atacado, pelo que, quer seja pelo bem-estar das pessoas, quer seja pelo bem-estar da fauna selvagem, é imperativo que as compensações que existem para estes casos sejam atempada e justamente pagas, e há que implementar urgentemente todas as medidas possíveis para conservação das espécies selvagens e para a protecção das espécies pecuárias, e não fazer justiça pelas próprias mãos usando “medidas” drásticas e ilegais como o abate a tiro ou o envenenamento.

 

Radiografia a Águia-cobreira (Circaetus gallicus) abatida a tiro, sendo possível observar os vários chumbos (pontos brancos). Fotografia: RIAS/ALDEIA

Qualquer animal selvagem está sujeito a estes modos de perseguição mas os que são maioritária e literalmente os seus “alvos” são aqueles que, de algum modo, causam nas pessoas o sentimento de serem uma possível ameaça, como os mamíferos carnívoros e as aves de rapina de variadas espécies, vistos como nocivos ao serem potenciais competidores pelos recursos (gado, aves de capoeira ou espécies cinegéticas), e ainda cães e gatos assilvestrados (particularmente nos casos de uso de venenos). Este assunto torna-se particularmente alarmante no que concerne à conservação da fauna selvagem quando muitos destes “alvos” são espécies com altos estatutos de conservação e com elevado risco de extinção (pelo menos regional), como o lobo-ibérico, o abutre-preto ou a águia-imperial-ibérica.

Outro ponto muito importante a ter em conta é que muitas das aves que são abatidas/envenenadas são aves migratórias (como a águia-calçada ou o milhafre-preto), espécies essas que se encontram protegidas não só em Portugal mas noutros países por onde passam, e onde, muitas vezes, apresentam estatutos de conservação ainda mais desfavoráveis do que o estatuto nacional.

O facto de assistirmos a casos de abate a tiro e envenenamento dentro de áreas protegidas torna estes flagelos ainda mais preocupantes, já que o conceito de “área protegida” se refere a protecção para a fauna, flora e outros recursos naturais, mas afinal parece que em alguns casos o nível de protecção (por falta de vigilância e de intervenção?) tem deixado as espécies protegidas algo “desprotegidas”…

 

Pintassilgos (Carduelis carduelis) capturados ilegalmente com vista à sua comercialização, também ilegal. Fotografia: CERVAS/ALDEIA

Apesar de ser ilegal abater qualquer espécie animal protegida (Decreto-Lei nº 316/89 de 22 de Setembro, transposição para a legislação nacional da Convenção de Berna – Anexo II) e de existirem leis reguladoras dos actos de caça que estipulam quais as espécies cinegéticas (“que se podem caçar”) e respectivas épocas e meios de caça, muitas espécies protegidas e com elevados estatutos de conservação são ainda alvejadas de modo intencional (de frisar que o lobo-ibérico possui mesmo uma lei específica para a sua protecção: Lei nº 90/88 de 13 de Agosto – Protecção do Lobo-ibérico). De referir ainda que estes casos se dão maioritariamente durante os períodos venatórios (épocas de caça), podendo no entanto, apesar de menos frequentemente, ocorrer fora destes, pelo que esta problemática deve ser abordada como um problema generalizado de perseguição às espécies por meio do abate a tiro e não como um problema limitado a um grupo-chave como são os caçadores.

Os conflitos entre caçadores/gestores cinegéticos, ou entre estes e as populações locais, também têm estado na origem de inúmeros casos de envenenamento, mas o uso de venenos na tentativa de controlo dos predadores de espécies cinegéticas e pecuárias é uma das razões mais graves e importantes. O controlo de roedores e aves silvestres consideradas prejudiciais às actividades agrícolas é igualmente uma prática frequente e pouco controlada, embora com consequências pouco conhecidas.

Os iscos envenenados são assim “direccionados” a determinados animais mas uma – entre tantas – característica muito perigosa do uso dos venenos é que não se trata de um método preciso e selectivo, já que quando um isco é colocado no campo é impossível saber se ele será consumido pelo animal a que se destina ou se por qualquer outro animal selvagem, ou doméstico, ou até mesmo afectar as pessoas directa ou indirectamente. Outra característica muito perigosa do uso de venenos é a persistência do tóxico no ambiente e a sua (in)capacidade de degradação: alguns tóxicos podem permanecer durante meses ou até anos em doses suficientemente altas para causar a morte aos animais que os ingiram, representando uma grave ameaça para a biodiversidade mas também para a Saúde Pública Humana. Infelizmente, os casos de envenenamento denunciados no que se refere às espécies selvagens parecem não ser suficientes para conhecer e apresentar o verdadeiro impacto ao nível da conservação das espécies protegidas. No entanto, existem vários factos que indiciam que o seu impacto sobre algumas espécies silvestres é potencialmente relevante, com particular destaque para algumas espécies de aves, principalmente as de hábitos necrófagos.

Estas espécies são susceptíveis a envenenamento primário quando ingerem iscos envenenados, mas também secundário quando se alimentam de aves e mamíferos envenenados acidental ou intencionalmente: uma vez que as substâncias tóxicas entram nas cadeias alimentares, podem tomar proporções incontroláveis! Outro importante facto relacionado com a mortalidade de animais silvestres é que de uma forma geral, são atingidos os exemplares em melhores condições físicas (que, assim, alcançam os iscos em 1º lugar) e com maior potencial reprodutor e, por isso, a dinâmica populacional pode ser gravemente afectada. Por essa razão, o uso de venenos é considerada uma das maiores ameaças à conservação de algumas espécies silvestres.

 

Libertação de Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) recuperada de lesões provocadas por abate a tiro (Covão Ametade). Fotografia: CERVAS/ALDEIA

Para começar a fazer frente ao problema do veneno, foi constituída em 2003 uma plataforma de várias organizações públicas e privadas portuguesas, denominada Programa Antídoto – Portugal, que propôs combater as diversas formas de utilização indevida de substâncias tóxicas e contribuir para um melhor conhecimento sobre as consequências que essas práticas representam para a fauna silvestre. A recolha de informações no âmbito do PAP permitiu conhecer com maior rigor as zonas do país e épocas mais críticas no que respeita à mortalidade de animais, que não tinha sido estudada em Portugal até então e, por essa razão, tinha sido subestimada.

 

Parte II

 

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