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Perseguição à fauna selvagem: como…, porquê? e porque não! (Parte II)

Liliana Barosa
Bióloga
Colaboradora voluntária da Associação ALDEIA


  Tartaranhão-ruivo-dos-paúis (Circus aeruginosus) proveniente de cativeiro ilegal, com penas deterioradas. Fotografia: CERVAS/ALDEIA

2017-04-13

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Parte II (continuaçao do artigo)

 

CAPTURA, CATIVEIRO & COMERCIALIZAÇÃO ILEGAIS:

Estes são factores de ameaça que afectam principalmente os Passeriformes (pelas suas belas cores e vocalizações, e de modo a dar continuidade a situações de criação em cativeiro), mas também diversas espécies de aves de rapina (potenciado por supostos desejos de se ser falcoeiro ou, por exemplo, por fanatismos futebolísticos), mamíferos (raposas e ouriços-cacheiros, porque são “fofinhos”) e répteis (cágados e camaleões, porque são “fixes”).

Pintassilgo (Carduelis carduelis) proveniente de cativeiro ilegal. Fotografia: RIAS/ALDEIA

Todas estas infelizes supostas “razões” são usadas para tentar justificar estes actos e dificultam o trabalho de sensibilização para a conservação das espécies junto da população em geral, mas existe um argumento que, mais cedo ou mais tarde, acaba por convencer as pessoas de quão erradas são: a captura, posse e venda de aves selvagens autóctones são actos ilegais, e como tal, devem ser de todo evitadas e, quando detectadas, denunciadas às autoridades (SEPNA/GNR e ICNF), dando origem à aplicação de coimas.

Durante uma acção de fiscalização (…) a GNR apreendeu uma arma de caça, três caixas armadilhas e um gato-bravo (…). Segundo a GNR, o gato-bravo estava dentro de uma das caixas armadilhas e, por estar vivo, foi restituído ao seu habitat natural.
Correio Alentejo, 20/11/2013 – 15:34

 

Uma operação da GNR e do Instituto da Natureza, que terminou ontem à tarde no concelho do Porto, resultou na apreensão de cerca de 200 aves autóctones, das quais 168 eram pintassilgos.
Correio da Manhã, 25/02/2013 – 00:42

 

Águia-de-asa-redonda à venda nas redes sociais:
Espécie protegida já foi recuperada pela GNR.
Correio da Manhã, 08/07/2013 – 14:37

Nos últimos anos tem existido um maior empenho das autoridades para recolher animais que são capturados ou estão em posse ilegal por parte de particulares e a tendência, e esperança, é para um aumento progressivo de apreensões nos próximos anos, tendo em consideração que há uma maior sensibilização da população para a denúncia destas situações e uma maior intervenção por parte das autoridades. Ainda que nalguns casos seja alegado o desconhecimento da legislação, a maioria dos casos de cativeiro é totalmente intencional e até mesmo compactuado por quem nunca o deveria fazer (ou não houvessem casos relatados, por exemplo, de alguém que levou uma raposa “de estimação” a um veterinário e ele, tristemente, deixou que o animal ficasse com os “donos” sem nada fazer…).

Tartaranhão-ruivo-dos-paúis (Circus aeruginosus) proveniente de cativeiro ilegal, com anilha metálica. Fotografia: CERVAS/ALDEIA

O desconhecimento das necessidades de cada espécie e a manutenção de animais SELVAGENS em cativeiro leva frequentemente a que sejam mantidos sob condições de má higiene, deficiências nutricionais e stress constante, o que leva ao desenvolvimento de patologias e lesões muitas vezes irreversíveis. Para além dos problemas próprios da situação de cativeiro, em muitos casos verifica-se corte intencional de penas, garras e até de bicos ou membros das aves selvagens capturadas. Tal significa que mesmo sendo apreendidas e encaminhadas para um centro de recuperação, a sua recuperação completa e posterior devolução à Natureza é por vezes impossível devido não só às lesões físicas mas particularmente ao tempo prolongado de contacto com humanos que afecta o estado psicológico normal de cada indivíduo, sobretudo se esse contacto existir desde uma fase muito inicial na vida do animal (estes animais não podem ser devolvidos à Natureza pois na grande maioria dos casos não conseguiriam relacionar-se correctamente com outros indivíduos da mesma espécie e poderiam aproximar-se em demasia de populações humanas).

Devolução à natureza de pintassilgos (Carduelis carduelis) provenientes de cativeiro ilegal. Fotografia: RIAS/ALDEIA

A captura e cativeiro ilegais representam assim um importante factor de ameaça ao retirarem indivíduos da Natureza e ao potenciarem a continuidade/repetição destes mesmos actos através da sua exibição em cativeiro e, ainda, possível comercialização.

Gostamos de pensar que o aumento do número de casos apresentados nos meios de comunicação social reflecte um maior número de denúncias e, consequentemente, um esforço maior ao nível da detecção e resolução destes casos e que não indique (pelo menos directamente) que esteja a ocorrer um aumento do número de indivíduos capturados e/ou mantidos em cativeiro e/ou comercializados… No entanto, apesar do passatempo de “ir aos pássaros” e metê-los nas gaiolas ser algo que, em grande parte, tenha feito parte da infância de muitos mas já não fará da dos seus filhos ou netos, actualmente lidamos com dois factores que inflacionam esta problemática: a tão badalada “crise”, que poderá estar a suscitar novos infractores pela captura de espécies protegidas com vista à sua comercialização, e as novas tecnologias, com as suas redes sociais e websites de livre acesso, que facilitam essa mesma comercialização.

É realmente assustadora a facilidade com que se chega a um site de anúncio e venda grátis (tipo aquele com uma publicidade cuja música não sai da cabeça) ou a uma rede social (como aquela que toda a gente fala) e nos deparamos com a comercialização de exemplares de espécies protegidas, desde águias a pintassilgos. Recordo, mais uma vez: a comercialização destas espécies é ilegal e a sua captura no meio ambiente e manutenção em cativeiro têm efeitos muito negativos na conservação da fauna selvagem. Estas ofertas entram-nos literalmente pela casa adentro através do ecrã do computador e é nossa obrigação denunciar todas as situações irregulares que detectemos. Se conhecermos algum passarinheiro, cabe-nos explicar-lhe que não pode criar espécies autóctones, apenas espécies exóticas legalmente adquiridas. Todos podemos contribuir para a diminuição da procura e da oferta, e, assim, para o aumento da preservação destas espécies.

 

A SOLUÇÃO…

Não sei se haverá apenas uma solução para uma problemática tão antiga, tão abrangente e tão crescente como a perseguição às espécies selvagens, nem soluções muito fáceis… Mas existem alguns sítios por onde creio que se poderá começar:

  • Um maior esforço preventivo, aumentando o nível de informação e sensibilização da população em geral;
  • Acções de educação e formação ambiental direccionadas a grupos importantes nestas temáticas, como os caçadores e produtores de gado, que visem uma correcta e acessível explicação sobre a biologia e ecologia destas espécies e sobre a sua importância no equilíbrio dos ecossistemas, que poderão contribuir para uma melhoria do conhecimento e vontade de protecção destes animais;
  • A formação das mais diversas entidades e da população em geral, de como reconhecer e agir perante a detecção dos animais em alguma destas situações (envenenado, ferido com um tiro, em cativeiro, etc.);
  • Da parte das autoridades competentes, reforçar os meios de vigilância e controlo, sobretudo nos locais onde existem fortes indícios da ocorrência de algum destes factores de ameaça, e aumentar o esforço para que seja dada a devida continuidade aos processos legais que visam condenar os responsáveis por estes actos e, assim, também usufruir do efeito dissuasor destas condenações.

 

Concluindo: um controlo e uma vigilância apertados, associados a um crescente aumento da sensibilização e educação ambiental que visem o desenvolvimento de atitudes com vista à diminuição destas problemáticas, são essenciais, devem ocorrer numa visão integrada de conservação da natureza e de saúde pública, e poderão ser a chave para o início da solução deste problema.

 

Referências

cervas-aldeia.blogspot.com
rias-aldeia.blogspot.com
www.antidoto-portugal.org
e um forte agradecimento ao CERVAS e ao RIAS pelas fotografias.

 

  #cativeiro