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Diogo Lopes de Sequeira: Um Vice Rei da India, navegador alentejano do Alandroal

António Neves Berbém
Licenciado em História
Relações internacionais


  Vista de Goa em 1509

2017-04-20

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O Alandroal é uma terra com “o benefício e a sorte histórica” de ser mencionada, directa e indirectamente, duas vezes nos Lusíadas de Camões, essa obra fabulosa da literatura e poesia universal onde aparece tudo (assim como as orações por dividir). No Canto VIII, Estância 33, e no Canto X, Estância 52, estão as referências a Pero Rodrigues, amigo de grande confiança pessoal de D. João I, o Mestre de Avis; e a Diogo Lopes Sequeira que foi também amigo pessoal de Afonso de Albuquerque, o grande visionário e construtor do Império português na Índia.

 

Diogo Lopes Sequeira

 

Apesar de que o Alentejo ainda “que quase não tenha mar”, deu grandes asas e bastantes personagens à saga das Viagens e dos Descobrimentos.

Basta recordar que Vasco da Gama cujos avós paternos seriam de Elvas com parentes em Olivença, foi escolhido para a sua primeira viagem á Índia, em Janeiro de 1497, estando o Rei D. Manuel em Estremoz. Isto enquanto a empresa-viagem à Índia terá ficado decidida em Montemor. Como é sabido, Vasco da Gama, nasceu em Sines, onde o pai D. Estevão da Gama, casado com D. Isabel de Sodré, está atestado como Alcaide de Sines e Comendador do Cercal.

Acrescentemos a Vasco da Gama, o nome de Pedro Nunes, o astrónomo português de Alcácer do Sal que foi autor de vários tratados de navegação, o inventor do Astrolábio e comentador da obra heliocêntrica do polaco N. Copérnico enfrentando o poder espiritual e material enorme da Igreja e dos Papado de Roma.

Diogo Lopes Sequeira, que partiu, do Alandroal, para ser Comandante de várias Armadas e Vice-Rei da Índia ao lado dessa outra grande personagem da História de Portugal, chamada Afonso de Albuquerque.

Diogo Lopes Sequeira nasceu no Alandroal em 1465/66 e faleceu em 1530. Filho de Lopo Vaz de Sequeira, Alcaide-mor do Alandroal e de D. Cecília de Meneses. Casou duas vezes, a primeira vez com Maria de Vilhena e depois com Maria Freire de Andrade. Teve 5 filhos: Lopo Vaz de Sequeira, António Lopes de Sequeira, Isabel de Sequeira, Branca de Vilhena e ainda Diogo Lopes de Sequeira que foi também Alcaide-mor. Irmãos contam-se três e chamavam-se: Maria de Meneses, João Lopes de Sequeira e António de Sequeira.

Em termos físicos, a crer nas descrições dos Vice-reis (Manuel Faria de Sousa) era um homem da época, um tanto entroncado e porventura mais alto do que baixo. Usava, claro está, vestes e longas barbas como sinal de nobreza, autoridade e respeito, usadas nas teocracias árabes.

 

O que fez Diogo Lopes Sequeira com a sua longa vida

Foi Fidalgo da Casa Real, Comandante de Armadas, foi do Conselho do Rei D. Manuel, Almotacé da Corte. Um militar/oficial de elite como também foi sendo visto e aceite entre os muçulmanos e indianos.

Logo em 1509, foi enviado com 4 naus a descobrir Malaca e a assentar Tratado de Amizade e Comercio com o rei local, Mahamud. Malaca (Malásia), no Golfo de Bengala, era uma cidade rica de 30.000 fogos e 100.000 habitantes e estava no centro do comércio da Arábia, Indostão, China, Japão e Filipinas, dominada por comerciantes mouros.

Frota portuguesa em 1518 sobre o comando de Diogo Lopes Sequeira

Nesta missão, Diogo Lopes Sequeira reconheceu as costas de Madagáscar e esteve na ilha de Sumatra (Indonésia) onde depôs um Padrão de Armas. Avistou um cabo a que deu o nome de S. Lourenço. Navegou por outras ilhas às quais chamou de “Santa Clara”. Daqui partiu para a Índia e chegou a Cochim em 21/4/1509 após um ano de navegação. Malaca acabou por lhe correr bastante mal. Distraído, jogava xadrez enquanto os inimigos mouros tentavam apunhá-lo. Salvou-o Fernão de Magalhães. Deixou lá 20/27 cativos que Afonso de Albuquerque haveria mais tarde de resgatar quando atacou e ocupou finalmente esta cidade. Voltou para Portugal, algo zangado, com o amigo Afonso de Albuquerque que lhe lamentou o desfecho inglório em Malaca mas também o facto de ter perdido “ um óptimo oficial e amigo”.

Depois em 1510, serviu o Rei em comissão militar, no norte de África, comandando armadas no Estreito de Gibraltar contra a pirataria moura, que infestava as costas do Algarve. Provavelmente praticando também a guerra de corso. Assim em 1516, levou socorro a Arzila, cercada pelo reino de Fez e tomou parte nas expedições contra os reinos mouros de Targa e Araiana.

Como recompensa, foi nomeado em 1518, Governador da Índia. Para o efeito saiu de Lisboa em 27/03/1518, com 9 embarcações e 1.500 homens. Chegou a Goa em 8 de Setembro. Dali foi para Cochim onde Lopo Soares de Albergaria lhe entregou o governo geral da Índia. Nesta missão especial, levava ainda como regimento entrar no Mar Vermelho e ir ao porto de Maçuá na Etiópia, um reino cristão do imaginário – Preste João, aliado dos cristãos. Sem grande sucesso, no Mar Vermelho, ensaiou uma nova expedição contra Diu onde também viria a falhar. De facto, andava a faltar-lhe o génio estratégico arriscado e espantoso do amigo Afonso de Albuquerque.

Não obstante, Diogo Lopes Sequeira, conseguiu estabelecer relações comerciais proveitosas com o reino de Pegú graças ao seu empenho diplomático. Era afinal um bom diplomata. Por isso mesmo, deixou uma fortaleza construída em Chaúl e uma feitoria nas Ilhas Maldivas que era uma das escalas de navegação clandestina dos muçulmanos para o Mar Vermelho e para o Golfo Pérsico.

O seu sucessor, Duarte de Meneses, desde Janeiro de 1522, haveria entretanto de exercer um menos bom governo como prova o levantamento do Rei de Ormuz contra o nosso domínio.

 

Lembrando um episódio bastante curioso

Em Maçuá, reino da Etiópia, que Camões (?) no Canto X, Estância 52, invoca por ter “ as cisternas de água cheias”, Diogo Lopes Sequeira, não teve com meias medidas e mandou “ Purificar e Benzer uma das suas mesquitas convertendo-a em “Capela de Nossa Senhora da Conceição”, padroeira do Alandroal, onde se celebrarão os santos mistérios”, do cristianismo, é claro!

 

Finalmente, em 1522, Diogo Lopes Sequeira, fez-se “de vela” para Portugal e deve ter regressado ao Alandroal. Tornamos a encontrá-lo, ainda em 1524, a prestar testemunho no processo litigioso entre D. João III e o Imperador Carlos V sobre a posse das Molucas. Também conhecidas pelas Ilhas do Cravo ou das drogas ricas.

Anota-se que, Carlos V, ordenou várias expedições às Molucas, o que originou combates entre espanhóis e portugueses em Ternate e Tidore e que o Papa Adriano IV estaria preparado para enviar um navio que serviria de árbitro na fixação da linha de demarcação da latitude das Ilhas, tendo em conta as disposições do Tratado de Tordesilhas.

Foi assim até que, em Fevereiro de 1524, os dois soberanos combinaram nomear de parte a parte: 3 astrónomos, 3 pilotos e 3 sábios que se reuniram entre «Elvas e Badajoz» para resolver este conflito político-geográfico. Entre os 3 Pilotos lá estava Diogo Lopes Sequeira.

Esta real contenda, só haveria de terminar pelo Tratado de Saragoça de 23/04/1529, um ano antes de Diogo Lopes Sequeira morrer, pelo recuo da linha de partilha proposta no Tratado de Tordesilhas além do pagamento de 250.000 ducados pelo Imperador espanhol. E, finalmente, pelo abandono de Carlos V das pretensões à posse das Molucas dado que foram os portugueses os seus primeiros ocupantes.

Diogo Lopes Sequeira terá acompanhado e estado sempre a par destas complicadas negociações!

Importa deixar assinalado que, só após a sua morte, foi elevado à categoria de Vice-rei como era usual e aconteceu com Afonso de Albuquerque.

 

Relações com Afonso de Albuquerque

Afonso de Albuquerque, foi descrito pelos cronistas da época como um notável e destemido navegador e um príncipe do Renascimento. O grande construtor do Imperio na Índia. Senhor de Vila Verde dos Francos, discípulo de Pedro Nunes, Camões dedica-lhe inteira, a Estância 40 do Canto X.

Retrato de Afonso de Albuquerque (1546)

Retrato de Afonso de Albuquerque (1546)

Católico fervoroso, devoto da Ordem de Santiago de cuja ordem era Cavaleiro, tinha escolhido como seu modelo e prestígio de conquistador e guerreiro, Alexandre – o Grande, sabendo-se que chegou a planear em segredo (com D. Manuel) a reconquista da Terra Santa. Lobo vencedor de batalhas navais e de guerras marítimas temível, político de vistas largas, diplomata capaz de todas as astúcias e finuras, era também (e para que se saiba) um pouco comediante e grande orador. Os seus relatórios e cartas ao Rei, são consideradas obras-primas de estadista de tão bem escritas que eram.

Desinteressado de riquezas imediatas, austero, justiceiro, a sua vida de Conquistador / Almirante dos mares orientais, foi também marcada por crimes de guerra hediondos. Embora depois na paz se mostrasse afável e cortês.

Afonso de Albuquerque, contemporâneo de Diogo Lopes Sequeira, morreu aos 53 anos (em 16/ 12/1515) deixando fortalezas e feitorias nos portos e enclaves estratégicos fundamentais da Índia, como Ormuz, Goa, Malaca, Calicut, Cananor (onde chegou a estar preso por ordem de D. Francisco de Almeida) e Cochim, praças fortes onde se negociavam as principais especiarias do Oriente. Desde a pimenta, à canela e ao gengibre, passando pela escravatura.

Doente, desiludido, amargurado, deixou como testamento espiritual a célebre frase: “ Morro, mal com El-rei por amor dos homens, e mal com os homens por amor de El-rei” depois de pedir protecção para o seu filho, D. Braz de Albuquerque.

À sua morte, o seu prestígio era tal que os reinos e potentados muçulmanos e indianos da época procuravam estar em paz com ele, desde os reinos de Cambaia, de Java e até à China.

Perdida ficava também a hipótese de criar uma nova raça luso-indiana através dos casamentos entre as bailarinas indianas e os atrevidos e deslavados portugueses. Descontada a cena escabrosa de «já morto» ser levado num palanque pelas ruas de Goa, com os olhos abertos, perante os choros e lamentações da população, o que se impõe dizer é que foi ao grande Afonso de Albuquerque (depois do curto governo sem brilho da Índia, exercido por Lopo Soares de Albergaria até 1518) que Diogo Lopes Sequeira veio a suceder.
Conclusões

Segundo C. Boxer ou, de acordo com C. Cipola, a característica mais espantosa do Império português da Índia, foi por um lado a sua extrema dispersão. Mas, por outro lado, foi o poder de fogo e da artilharia pesada das embarcações portuguesas. Autênticas fortalezas marítimas.

Além disso, Afonso de Albuquerque nunca esteve sozinho. Teve o envolvimento da Corte de D. Manuel e de outros grandes navegadores, combatentes e governadores na Índia. Uma ocupação que durou até ao século XX.

De facto, a história e a saga da expansão portuguesa na Índia é bastante mais complexa do que aquilo que deixámos aqui levemente entrevisto sendo a consulta das fontes primárias um trabalho necessário bastante exigente.

Porém pode-se concluir que «o perfil humano» de Diogo Lopes Sequeira conduz-nos a ver nele,” um Fidalgo- mercador …Eficiente e ponderado Comandante das diversas Armadas que foi organizando”, descrito por Vitorino Magalhães Godinho. Homem dotado certamente de uma inteligência maior, bastante menos expansivo do que Afonso de Albuquerque e menos teatral. Bom diplomata e negociador competente, foi um fiel servidor dos seus três reis (D. João II, D. Manuel I e D.João III) que acompanhou durante a sua vida embora também tivesse sido um tanto critico do “Piedoso” na questão das Molucas.

Resta acrescentar que teve a fama e, talvez, também o proveito de “gostar de enricar” de uma forma bastante apressada. Uma prática que era, no fundo, bastante comum entre os Fidalgos da Casa Real que embarcavam para a Índia. Visto que “na Pátria… era pouca a fartura” como o contou Fernão Mendes Pinto na “Peregrinação” que Fausto musicou e veio a cantar em «Por este Rio Acima» de uma forma original e criativa.

Seja como for, Diogo Lopes Sequeira “ jaz morto e enterrado na Consolação” numa igreja em ruínas, no Alandroal, à espera que um dia, alguém, lhe torne a erguer e a redescobrir o seu passado, a sua memória e a conhecer a sua intervenção na História Internacional de Portugal e do Euromundo percebido por Camões no século XVI. Durante os três reinados decisivos que fizeram de nós “Senhores da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”. Isto sem esquecer que o Rei de Portugal e dos Algarves, até 1521, era também Rei “Daquém e de Dalém em Africa e Senhor da Guiné”.

Um nome de rua (que é a rua onde nasci) e de Escola já não chegará. Ou chega, cada vez menos, porque como dizia G. Orwell “só quem conhece o passado possui e controla o futuro”.

“Heróis do mar” que fomos estamos novamente em lista e à espera de vez para alargar e manter “o mar português” que anda, cada vez mais, eurocobiçado!

 

  #alandroal  #albuquerque  #alentejo  #india  #sequeira

 

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