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Aves Estepárias: as silhuetas nas Planícies Alentejanas

Liliana Barosa
Bióloga
Técnica da LPN - Liga para a Protecção da Natureza


  Abetarda (Otis tarda) em parada nupcial (foto de Iván Vázquez)

2017-06-07

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Não será fácil ver Abetardas, Sisões ou Peneireiros-das-torres em qualquer lado. Não digo que seja “impossível” porque no mundo das aves essa é uma palavra a usar com precaução, já que as suas asas por vezes as levam até sítios improváveis e as tornam raridades em determinado local.

Sisão (Tetrax tetrax) (foto de Thijs Valkenburg)

 

A verdade é que estas três espécies, reunidas com uma série de outras, preferem paisagens com um relevo mais suave, dominado por planícies e com poucas árvores, as chamadas pseudo-estepes ou estepes cerealíferas. Este habitat, tão característico da “fotografia” alentejana que nos povoa a memória e/ou a imaginação, derivou em Portugal da já tão antiga agricultura extensiva praticada por estas terras, baseada na rotação entre as extensas searas de cereal de sequeiro e os pousios (em que o solo “repousa” para recuperar a fertilidade e que se usam como pastagens) muito semelhante às verdadeiras estepes mas com origem na acção humana. Acompanhando as centenárias mudanças nas terras, também muitas espécies se adaptaram a este habitat e criaram laços entre si, num ecossistema completamente dependente dos métodos agrícolas extensivos, e ao qual pertencem as chamadas aves estepárias. Este é o ecossistema terrestre com maior proporção de aves ameaçadas, com cerca de 80% destas espécies a apresentarem um estatuto de conservação preocupante. Dentro da União Europeia, a Península Ibérica é actualmente a região mais importante para as aves estepárias sendo aqui que grande parte da comunidade destas aves ocorre e onde se verificam, para a maioria das espécies, as principais populações.

Portugal alberga uma grande diversidade de espécies de aves estepárias e, apesar da escassa informação concreta, crê-se que, em tempos idos, a maioria das espécies seria muito mais abundante e com uma distribuição mais ampla, correspondente à quase totalidade do território nacional. Nos dias de hoje, apenas o Alentejo mantem uma importância significativa para este emblemático grupo de aves e, mesmo aqui, são cada vez menos e menores os redutos com habitat favorável a estas espécies, sendo em alguns casos limitados a pequenas “bolsas” de habitat estepário entre outros habitats distintos.

A comunidade de aves estepárias partilha entre si adaptações morfológicas, fisiológicas, ecológicas e comportamentais a estes ambientes, que podem ser tão inóspitos, desabrigados e até hostis. Estas aves apresentam, portanto, características realmente incríveis e algumas delas funcionam como “espécies-bandeira”, tendo-se tornado as “caras” mais populares do grupo das aves estepárias.

Dificilmente encontraremos um amante das aves ou da fotografia de natureza que se desloque ao Alentejo e não vá em busca da “rainha” da estepe, a Abetarda (Otis tarda). A ave voadora mais pesada da Europa – os machos podem atingir os 16kg! – desperta a curiosidade pelo seu tamanho, pela sua belíssima e (in)confundível plumagem e pelas incríveis paradas nupciais executadas pelos machos, realizadas em áreas específicas, de “lek”, e em que demonstram efectivamente que são os “reis” da pseudo-estepe, com intensas lutas e exibições nupciais. As abetardas alimentam-se essencialmente de plantas verdes espontâneas, sementes e invertebrados, dando preferência aos insectos durante a fase de crescimento dos juvenis. As posturas dos ovos são feitas em searas ou pousios altos, e as crias são nidífugas, ou seja, abandonam o ninho pouco tempo após nascerem, seguindo a progenitora.

Abetarda (Otis tarda) (foto de Iván Vázquez)

Bem mais pequeno que a Abetarda, mas igualmente interessante e pertencente à família dos Otitídeos, temos o Sisão (Tetrax tetrax). Esta ave não ultrapassa o quilograma de peso, as fêmeas são ligeiramente mais pequenas que os machos e estes, durante a primavera, exibem-se com uma plumagem distinguida pela “gravata” preta com barras brancas em torno do pescoço. Os machos emitem um assobio sibilante muito característico – é mais fácil escutar um Sisão do que vê-lo! – que se produz com o bater do vento numa das penas primárias, e que esteve na origem do nome “Sisão”. Alimentam-se igualmente de plantas verdes, sementes e invertebrados (as crias preferem os insectos), os machos realizam as paradas nupciais em zonas de “lek” e as fêmeas colocam 3 a 4 ovos directamente no solo, em pastagens com vegetação alta e densa.

Já o Peneireiro-das-torres (Falco naumanni) pertence a uma família diferente, à dos Falconídeos, e é uma pequena ave de rapina migratória e colonial. Deve o seu nome vulgar à sua fantástica capacidade de “peneirar”, um modo de voo que, com rápidos e circulares movimentos das asas, lhes permite ficarem literalmente parados no ar enquanto buscam as suas presas. Mais pequeno que o seu “primo” Peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus), difere dele também na coloração, tendo os machos o dorso liso oposto ao dorso malhado dos Peneireiros-vulgares, e nos comportamentos: o Falco naumanni estiva em Portugal, passando o Inverno em África, e nidifica em cavidades de construções humanas, como os montes alentejanos, onde as fêmeas colocam 3-5 ovos. Verifica-se dimorfismo sexual, ou seja, os machos diferem das fêmeas ao apresentarem a cabeça e cauda cinzentas e ao serem ligeiramente mais pequenos. Este falcão alimenta-se de insectos, sobretudo de gafanhotos e de grilos-ralos, apesar de também poder caçar pequenos mamíferos, outras aves, répteis e anfíbios.

Peneireiro-das-torres (Falco naumanni) a peneirar (foto de Iván Vázquez)

 

Apresentadas as aves, é tempo de perceber porque estão tão ameaçadas: a Abetarda está considerada “Em Perigo” e o Peneireiro-das-torres e o Sisão apresentam o estatuto de conservação nacional de “Vulnerável”! Temos ainda, por exemplo, o Rolieiro (Coracias garrulus) “Criticamente em Perigo” e o Cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis) “Em Perigo”.

Todas estas aves são extremamente sensíveis às alterações das práticas agrícolas que, num passado recente, conduziram à perda e fragmentação do seu habitat por toda a Europa. Referimo-nos, nomeadamente, à intensificação da agricultura e à florestação de terras agrícolas, mas as mudanças na agricultura não são os únicos problemas que estas aves enfrentam. As ameaças à sua conservação incluem o abandono do meio rural, a colisão com linhas eléctricas e vedações, a electrocussão nos postes de energia, a fragmentação das populações causadas por cercas e estradas, a perturbação humana, a predação e – o tão aclamado e actual tema – as alterações climáticas.

A intensificação da agricultura e aumento da pressão humana são os principais factores que levaram ao declínio das populações destas aves. Destes factores resultaram grandes perdas e fragmentação de habitat através do desaparecimento dos pousios, aumento da densidade de gado, florestação de zonas agrícolas, aumento dos regadios, conversão de culturas arvenses em vinhas ou olivais e proliferação de estradas, linhas eléctricas, vedações e valas de drenagem. Outros factores, como a mecanização agrícola, a utilização de pesticidas, herbicidas e fertilizantes, os fogos e a predação, contribuem para o aumento da mortalidade de ovos, crias e juvenis.

A falta de locais de nidificação para o Peneireiro-das-torres, originada com a obstrução ou destruição de cavidades durante remodelações e demolições dos edifícios onde as aves nidificam, é outra das ameaças mais prementes para esta espécie. Apesar da protecção legal existente, a pilhagem de ninhos continua também a ser uma ameaça para este falcão.

Casal de peneireiros-das-torres (Falco naumanni) (foto de Iván Vázquez)

As vedações das propriedades podem ser barreiras intransponíveis, principalmente para as crias não voadoras, ao impedirem a sua livre circulação e o acesso a alimento e água. Nas áreas de “lek” de Abetarda, a colocação de novas vedações pode levar à extinção desses locais (os machos de Abetarda necessitam de espaços amplos sem barreiras onde consigam caminhar para exibir a sua plumagem às fêmeas ou para lutarem entre si e estabelecerem hierarquias no bando). Para além do efeito barreira que provocam, existe ainda o perigo por vezes mortal de colisão das aves com as fiadas de arame farpado existentes nas vedações.

As linhas de transporte e distribuição de energia eléctrica representam um perigo para as aves, que frequentemente morrem por colisão com os cabos condutores ou por electrocussão nos apoios, sendo o Sisão e a Abetarda das que mais sofrem os impactos destas estruturas (no caso desta última, a colisão com linhas eléctricas está identificada como uma das principais causas de mortalidade para a espécie).

As crescentes alterações climáticas, provocadas pela actividade do Homem, são actualmente um facto cientificamente comprovado, sendo perceptível um efeito negativo bastante acentuado nos ambientes e recursos naturais, devido ao aumento da frequência das secas extremas ou de fenómenos climáticos intensos fora de época. Com consequências ao nível da qualidade do habitat e da sobrevivência das aves, particularmente das crias pequenas, as alterações no clima são também encaradas, hoje em dia, como uma das principais ameaças à biodiversidade, incluindo às aves estepárias.

Para procurar contrariar e solucionar estas problemáticas, a LPN – Liga para a Protecção da Natureza (www.lpn.pt) tem desenvolvido vários projectos de conservação, particularmente na Zona de Protecção Especial (ZPE) de Castro Verde. Este espaço da Rede Natura 2000 tem sido alvo de diversas medidas, especialmente implementadas através do Programa LIFE da Comissão Europeia (CE). Essas acções incluem a gestão cinegética e agrícola favorável à protecção da avifauna estepária e do seu habitat, sinalização e colocação de passagens para a fauna em vedações, sinalização e modificação de linhas eléctricas, aquisição de terrenos sensíveis para a Abetarda, construção de paredes e torres de nidificação e monitorização das colónias do Peneireiro-das-torres, recuperação de aves feridas, estudos de impacto das alterações climáticas e implementação de medidas de minimização dessas, participação pública e sensibilização ambiental. O último projecto desenvolvido foi o LIFE Estepárias, e poderá encontrar mais informações sobre os seus detalhes em www.lifeesteparias.lpn.pt.

Talvez as medidas apresentadas anteriormente nos soem um pouco “fora de alcance para um comum mortal” mas a verdade é que todos podemos, sempre, colaborar na conservação das espécies. Gestos simples como a não perturbação de ninhos ou a sensibilização ambiental – mesmo em ambientes informais como uma conversa de café – têm um elevado valor na preservação das aves. Se durante um passeio no campo encontrar uma ave ferida (ou qualquer outro animal selvagem) contacte as entidades responsáveis (SEPNA/GNR ou ICNF) e encaminhe-a para um centro de recuperação de fauna selvagem. No caso das aves estepárias do Baixo Alentejo, os indivíduos que necessitam de cuidados são encaminhados para o RIAS – Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens, em Olhão, que é gerido pela Associação ALDEIA (também responsável pela gestão do CERVAS, em Gouveia).

É a diversidade de habitats e de espécies que neles (sobre)vivem que pode contribuir para o equilíbrio essencial à vida de todos: deste os 1993m de altitude da Torre na Serra da Estrela às baixas planícies de 300m do Alentejo, desde a pequena Ferreirinha-alpina (Prunella collaris) à enorme Abetarda. As teias existentes nos ecossistemas, e as similaridades apesar das diferenças, acabam por tornar transversais tanto as problemáticas como as soluções.

 

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