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O lobo-ibérico, esse magnífico desconhecido


  Lobo-ibérico (fotografia de Grupo Lobo)

2017-06-29

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O Mito

Em terras lusas, nenhum outro animal possui a carga histórica e mítica do lobo. Admirado e adorado por uns, temido e odiado por outros, ele arrasta consigo a maldição de suscitar fantasias e medos irracionais que ainda pioram a sua imagem. De superstições antigas, como os lobisomens a invenções modernas como reintroduções – que de facto nunca existiram nem aqui nem em qualquer outro local da Europa – o nosso maior predador é um dos animais mais perseguidos e incompreendidos de Portugal.

 

Lobo-ibérico (fotografia de Artur V. Oliveira)

 

O Animal

O lobo-ibérico, cujo nome científico é Canis lupus signatus, distingue-se do lobo comum no resto da Europa sobretudo por ser mais pequeno e pela pelagem mais amarelo-acastanhada. A palavra “signatus” – “marca” ou “sinal” em Latim – indica as listas negras que a forma ibérica apresenta na parte anterior das patas dianteiras. As suas dimensões e peso são, em média, idênticas às de um Cão de Pastor Alemão. Altura ao garrote entre 60 cm e 70 cm, comprimento de 140 cm a 180 cm
e peso a variar entre 25 kg e 40 kg.

Mesmo observadores atentos podem confundir alguns cães com lobos; distingui-los pode ser difícil, sobretudo porque o aspeto deste predador sofre alterações ao longo da vida e do ano, em termos de cor (podendo ser mais escuro em jovem e aclarar com a idade) e densidade da pelagem.
A mudança para a pelagem de inverno começa em outubro: os pelos lanosos (o subpelo) tornam-se mais numerosos e os de revestimento mais longos, dando melhor proteção contra o frio e a humidade. No dorso, na cauda e no pescoço, os pelos são mais compridos, sendo mais visível uma pequena juba, com tonalidades mais marcadas. Em março/abril ocorre a mudança para a pelagem estival, com os pelos lanosos quase inexistentes e os de revestimento mais curtos, apresentando tons mais amarelados.

A Alcateia

Os lobos são dos carnívoros mais sociais; a vida na alcateia parece consistir num equilíbrio entre comportamentos de conflito e de coesão, característicos de um grupo familiar. Numa alcateia típica os animais jovens são mais submissos para com os animais mais velhos e, à medida que vão crescendo, surgem mais conflitos entre animais do mesmo sexo, conduzindo à dispersão dos animais subadultos. Em determinadas situações, pouco frequentes, as alcateias podem também adotar, pelo menos temporariamente, indivíduos jovens dispersantes.

 

Lobos (fotografia de Grupo Lobo)

 

É sabido, através do estudo de animais com colares GPS, que alguns lobos dispersantes podem percorrer distâncias superiores a 1.000 km em poucos meses. É o caso do lobo “Slavc”, que dispersou no inverno de 2011, saindo das florestas da Eslovénia em busca de novos territórios. Numa semana, chegou à Áustria e, até chegar aos arredores de Verona, em Itália, percorreu várias zonas densamente povoadas. Em abril, atingiu o parque natural de Lessinia, onde se fixou e estabeleceu a sua alcateia após uma viagem de 1.200 km.
Na alcateia, geralmente apenas o par dominante se reproduz. Para se reproduzirem, os restantes lobos têm de abandonar a alcateia natal e encontrar um território livre com alimento suficiente para se poderem estabelecer com um novo parceiro e formar uma nova alcateia. Entretanto, podem dispersar, podem sobreviver sozinhos ou até juntar-se a outras alcateias, geralmente de forma temporária.
Em Portugal, o número de animais adultos por alcateia varia entre 2 e 8, consoante as regiões do País, sendo, em geral, no outono, ligeiramente menor na população a sul do rio Douro (média de 6 lobos) do que no Norte do País (média de 7 lobos). Em Espanha, por exemplo, a observação de 15 alcateias revelou um número médio de cerca de 9 lobos por grupo.

A Alimentação

Sendo um predador generalista, o lobo-ibérico consome de pequenos roedores a mamíferos de grande porte. Mas prefere ungulados silvestres, como o corço, o veado e o javali. Contudo, devido à destruição do habitat e à escassez das suas presas naturais, também se alimenta de ungulados domésticos, como vacas, cabras e ovelhas.

 

Fotografia de Erika Almeida

 

Se não for interrompido, um lobo tende a consumir totalmente as presas capturadas, podendo regressar várias vezes ao local onde deixou a carcaça. Quando um lobo está saciado pode também armazenar alimento, por norma enterrando-o em locais distantes do local de captura da presa, que aproveitará mais tarde.

 

Javali (fotografia de Joaquim Pedro Ferreira)

 

Um Papel

O lobo-ibérico reduz o número das suas presas silvestres e diminui de forma natural a ocorrência de doenças nas espécies de que se alimenta, dado que tem mais facilidade em caçar os exemplares débeis ou doentes.
Ao consumir javalis e veados, reduz os prejuízos que estes causam nas culturas agrícolas e florestais, e evita que transmitam ao gado doenças como a tuberculose e a brucelose. Em algumas regiões do País, o javali representa mais de 40% da alimentação dos lobos. Além disso, como superpredador que é, diminui os números de outros carnívoros, como a raposa, a geneta, o texugo ou a fuinha, minimizando assim o impacto destes nos animais domésticos e na caça. Também contribui bastante para reduzir o número de cães assilvestrados.

As Ameaças

Até ao princípio do século XX, o lobo vivia em quase toda a Península Ibérica. Mas o extermínio dos animais de que se alimentava, além da destruição da vegetação natural, levou ao seu desaparecimento de muitas zonas da Península. Hoje, o lobo em Portugal ocupa apenas 15% da área de distribuição ibérica da espécie, com uma população total que talvez não ultrapasse os 300 indivíduos.
A perseguição humana é a grande causa da ameaça de extinção que ainda impende sobre o lobo-ibérico. Aquela é motivada pelo desejo de impedir ataques ao gado, por ignorância ou medo, e pelo receio dos caçadores de que o lobo reduza a quantidade de exemplares de espécies cinegéticas. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas apurou que pelo menos 31 das 100 mortes de lobos registadas entre 1999 e 2014 foram causadas por laços, tiros ou veneno. A principal causa de morte detetada foi o atropelamento (35%).
A construção de estruturas que causam isolamento geográfico, como autoestradas ou barragens, a destruição da vegetação nativa e os incêndios, têm vindo a aumentar a fragmentação da população lupina, dificultando a dispersão dos animais e a troca de indivíduos entre alcateias.
Os cães vadios competem com o lobo por território e alimento, atacando muitas vezes os animais domésticos e causando prejuízos que tendem a ser atribuídos ao lobo. A possibilidade de hibridação com o lobo, originando híbridos férteis, poderá vir a ser um problema.

O Futuro?

A História parece ter começado a fazer marcha-atrás; com o despovoamento do interior, mais terras ficam à mercê dos animais e melhores condições ganham estes para se multiplicarem. O lobo intensifica a sua presença em distritos onde pouco se dava por ele, como nos distritos da Guarda ou de Castelo Branco. Noutras paragens, como Bragança e o Gerês, nunca chegou a desaparecer, perto de gentes sempre habituadas à vizinhança do predador.

 

Lobo (fotografia de Grupo lobo)

 

Temos legislação específica para proteger o lobo-ibérico (a Lei n.º 90/88 de 13 de agosto e o Decreto-Lei 139/90 de 27 de abril), proibindo o seu abate, captura, detenção, transporte, comercialização, assim como a exposição de exemplares e a perturbação ou destruição do seu habitat. Os criadores de gado são, ao abrigo desta legislação, compensados pelas perdas comprovadamente causadas por lobos.
Mas hoje a matança ainda não parou. Muitas vezes por inconsciência: armadilhas e laços colocados para diminuir ilegalmente o número de javalis que estragam culturas acabam por apanhar lobos – não poupando outros animais, nem sequer os cães da vizinhança. Já os venenos são coisa bem diferente: forma cobarde de matar animais, ameaçam várias espécies, incluindo aves que se alimentam de carcaças envenenadas.
Muito disto é feito a coberto da desculpa da proteção de rebanhos e manadas. Torna-se necessário (re)aprender a conviver com o lobo, diminuindo a dimensão dos prejuízos que ele causa. Métodos comprovados, como a seleção e a integração de bons cães de gado ou a construção de vedações, têm vindo a ser implementados, em grande parte com o incentivo de programas liderados pelo Grupo Lobo.
Devemos aos nossos filhos um mundo que eles possam partilhar com este animal magnífico. Assim a vontade de coexistir se sobreponha ao egoísmo criminoso de quem quer vergar a Natureza aos seus interesses.

Texto produzido no âmbito do Projecto LIFE Med-Wolf, co-financiado pela Comissão Europeia, integrando o programa LIFE.

 

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