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À descoberta da Estrela, primeira expedição científica


  Expedição à Serra da Estrela - 1881

2017-09-04

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Promovida pela Sociedade de Geografia de Lisboa, a I Expedição científica à serra da Estrela, em 1881, revelou-se não só num feito histórico da época como permanece até hoje como a única e maior concentração multidisciplinar de cientistas e meios no nosso país.

Texto: Paulo Barbosa
Revisão: José Conde (CISE)

 

Expedição 1881

Quatro séculos antes, Portugal tinha começado a descobrir mundo além mar. Tornara-se um vasto império que ia de Ocidente a Oriente, no entanto, territórios do berço da nação permaneciam desconhecidos, representando a Estrela o maior reduto por descobrir.

A 1 de Agosto começava, na estação de Santa Apolónia, a expedição idealizada um ano antes, em sessão de 5 de Julho, por Luís Marrecas Ferreira, Luciano Cordeiro e o médico José de Sousa Martins (estes dois últimos fundadores da Sociedade), que pretendia promover uma estância sanatorial para a cura da tuberculose (que no século XIX, tornou-se numa das doenças mais prevalecentes na Europa) em plena serra da Estrela e a edificação de uma estação meteorológica. A Sociedade de Geografia de Lisboa convidaria também para esta aventura Hermenegildo Capelo, capitão-tenente da Armada Portuguesa e experiente explorador de terras africanas. Embora a Estrela, até então também chamada de Hermínio, não comportasse os perigos de África, representava um território desconhecido e selvagem, cheio de mitos e histórias, até aí inexplorado, a sua experiência seria importante.

 

Alguns dos expedicionários: Gentil Martins, Jules Daveau, Hermenegildo Capelo, Emídio Navarro, Júlio Henriques e Martins Sarmento

As grandes viagens de exploração marítima empreendidas desde o século XV e subsequentes conquistas de novos territórios, sobretudo em África, levaram à fundação, a par de outros países europeus, da Sociedade de Geografia de Lisboa cujo objectivo principal era a exploração e pesquisa desses novos territórios ultramarinos, sendo este interesse crescente com o receio de perda destas colónias.

De Lisboa partiam 42 membros, aos quais se juntaram outros tantos vindos de Coimbra, Porto, Mealhada, Guimarães e até de algumas localidades serranas. Ao todo eram cerca de 100 pessoas, entre cientistas, especialistas, médicos e pessoal de apoio, que durante duas semanas iriam percorrer a Estrela, desenhar mapas, observar espécies, recolher amostras, desmistificar histórias e conhecer as gentes serranas. Para além de promovida pela Sociedade de Geografia, a expedição contou também com o apoio do governo, municípios e empresas locais, ministérios da Marinha, das Obras Públicas e da Guerra, o Regimento de Infantaria 13 da Guarda e os Caminhos de Ferro da Beira, sem os quais não seria possível tão grande sucesso do acontecimento.

O grupo expedicionário propôs-se divulgar o conhecimento adquirido publicando relatórios e documentos que ficariam depois disponíveis em arquivos, bibliotecas, museus e universidades. Nestes relatórios deveriam constar as dificuldades encontradas, a recolha e classificação das amostras e espécimens assim como a descrição das espécies e tradições. Cartografar, sondar, observar e curar, desenhar e fotografar, prestar serviço público, consultando, examinando, operando e dando medicamentos à população local (especialmente aos doentes), apontar mudanças e dar soluções, certificar e divulgar o conhecimento.

A campanha na serra começou a 4 de Agosto. O acampamento base situava-se na área do Cume, a curta distância da fonte dos Perus a 1850 metros de altitude. Durante a campanha os pastores (senhores da serra) foram guias incansáveis, desbravando caminhos, transmitindo saberes e ensinando a sobreviver nas árduas condições da montanha.

Num regime tipicamente militar, em que havia alvorada e silêncio a toque de corneta, as várias disciplinas do conhecimento trabalharam durante 15 dias.

 

Torre, 1881

A secção médica da expedição era composta pelos médicos Sousa Martins, Serrano, Jacinto Augusto Medina, o auxiliar de hidrologia Leão da Costa e o oftalmologista Francisco Lourenço da Fonseca. As ciências médicas trabalhavam pela primeira vez nas áreas prospectivas das patologias de altitude, climatologia médica, flora aplicada à farmacopeia e meteorologia, as quais certificariam a instalação, mais tarde, da estância sanatorial. O relatório desta secção continha um da sub-secção de oftalmologia, e outro da sub-secção de hydrologia minero-medicinal, dirigida pelos médicos Leonardo Torres e Jacinto Medina.

Do trabalho desta secção resultou a edificação de um observatório meteorológico (um dos primeiros da Europa) no Poio Negro – Penhas Douradas – a 1450 metros de altitude.

Na botânica, uma secção liderada pelo professor da Universidade de Coimbra Júlio Augusto Henriques que contava com a preciosa colaboração de Jules Daveau, jardineiro chefe do jardim botânico da Escola Politécnica de Lisboa, foi redigido um relatório importantíssimo, um dos mais completos da expedição, do qual faz parte um catálogo com todas as espécies conhecidas e de um estudo de geografia botânica.

A etnografia orientada por Marrecas Ferreira (um dos proponentes da expedição) produziu um relatório cujo subtítulo era “As lendas da Serra da Estrela na tradição escrita” que compila muitas histórias, lendas e tradições da região. Uma das lendas desmistificadas, com a ajuda da secção de geografia e hidrografia, foi a de que as águas da Lagoa Escura comunicavam com o oceano. Depois de sondarem e explorarem este lago concluíram que a sua profundidade era de apenas 16 metros na parte mais profunda.

Na zoologia, Fernando Matoso dos Santos, que só mais tarde, obtém autorização para publicar relatórios e algumas descobertas de novas espécies para a Península Ibérica, é responsável por esta secção, na qual conta com Daveau, também colaborador da secção de botânica e que está associado ao episódio descrito no livro “Quatro Dias na Serra da Estrela” de Emídio Navarro: “(…) Os pastores e guias apanharam alguns d’aquelles ophidios que qualificavam como viboras. O snr. Daveau, porém (…) teimava que elles não passavam de inoffensivas cobras. Os serranos sorriam com ar escarninho, zombeando da ignorancia petulante dos sabios de Lisboa; e o snr. Daveau, para os conter no respeito devido à superioridade da sciencia, recorreu a uma demonstração decisiva: offereceu a polpa do antebraço às mordeduras dos reptis. Effectivamente não eram viboras. Os serranos ficaram com cara de asnos, suspeitando que fôra caso de feiticeria.”

Outras secções não tiveram tanto proveito nesta expedição como é o caso da arqueologia, liderada pelo arqueólogo Francisco Martins Sarmento que concluiu que “até provas em contrário, no coração da Serra da Estrela na há antiguidade a procurar”, explicando que a Serra se torna inabitável uma grande parte do ano: “A neve alastra tudo.”.

Nos relatórios, faltaram as fotografias. Esta secção foi dirigida pelo major de cavalaria Frederico Augusto Torres, mas desconhece-se o paradeiro das fotografias. De entre as muitas imagens que nos chegaram dessa época, nenhuma pode, com segurança, ser atribuída aos fotógrafos que acompanharam a expedição.

A maior parte dos dados e acervos recolhidos pelas diferentes secções de investigadores (não chegando a ser publicados metade dos relatórios previstos), estão atualmente preservados em arquivos públicos e centros de investigação das Universidades.

Os expedicionários da Sociedade de Geografia de Lisboa deveriam ter regressado à serra da Estrela em 1883, pois a expedição fora planeada como plurianual. O mesmo não veio a acontecer, no entanto esta expedição abriu portas a outras explorações programadas, que embora não chegassem de perto à dimensão da primeira, revelaram-se de grande importância. É disso exemplo a grande descoberta feita em 1883 pelo geólogo Vasconcelos Pereira Cabral que publicou a primeira prova de uma glaciação na Península Ibérica depois de ter encontrado sulcos de glaciares, rochas aborregadas, blocos erráticos e moreias.

Muito ficou por descobrir, mas esta expedição talvez tenha despertado o início das investigações e conhecimento daquela que é a maior serra de Portugal continental.

Referências

Expedição scientífica à Serra da Estrela em 1881, Lisboa, 1883

A expedição científica à serra da Estrela de 1881 revisitada, Helena Gonçalves Pinto, Diário de Notícias, 13/05/2012

A Serra da Estrela e a origem do movimento sanatorial português (1881 – 1907), Ismael Cerqueira Vieira, CEM – Cultura, Espaço e Memória, 2013

A Expedição Científica à Serra da Estrela, organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa em Agosto de 1881, Suzanne Daveau

Inquéritos ao Território: Paisagem e Povoamento. Roteiro, Nuno Faria, 2016

Os conquistadores da serra da Estrela, Helena Matos, Jornal Público, 30/08/1999

História da fotografia e a sua aplicação à medicina, João José P. Edward

 

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