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Os filhos da primeira geração de Avis e o mito dos “ínclitos infantes”

Mariana Bonat Trevisan
Doutorada em História


  Casamento de D.João I e D.Filipa

2017-10-19

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Os filhos do rei D. João I (1357-1433) e da rainha D. Filipa de Lencastre (1360-1415) ficaram conhecidos ao longo da História como a Ínclita Geração. Para além do suntuoso panteão régio da família no Mosteiro da Batalha, em diferentes localidades portuguesas podemos encontrar monumentos e outros registros de memória ligados a D. Duarte (1438), D. Pedro, D. Fernando (conhecido como o “infante santo”) e principalmente, ao infante D. Henrique, o famoso Navegador. Curiosamente, além do menos conhecido dos filhos da primeira geração de Avis, D. João – que morrera cedo e não tão notavelmente como o “mártir” D. Fernando (cativo dos mouros em Fez) – a única filha da primeira geração de Avis, D. Isabel, é pouco rememorada, apesar dos notáveis esforços que fez para a preservação da memória familiar na segunda metade do século XV.

Portugal foi uma das mais antigas monarquias medievais a se estabilizar. Dos tempos de Afonso Henriques no século XII até o fim da monarquia portuguesa no início do século XX muitos foram os reis e membros da família real que marcaram a História lusa, no entanto, é difícil encontrar uma imagem de conjunto familiar régio mais marcante que a da chamada Geração de Avis. Ainda no século XVI, Camões, em seu Canto IV e estância 50 de Os Lusíadas, colaborou para eternizar essa imagem ao abordar a descendência do rei D. João I:

 

Não consentiu a morte tantos anos
Que de Herói tão ditoso se lograsse
Portugal, mas os coros soberanos
Do Céu supremo quis que povoasse.
Mas, pera defensão dos Lusitanos,
Deixou Quem o levou, quem governasse
E aumentasse a terra mais que dantes:
Ínclita geração, altos Infantes.

 

No entanto, antes de Camões, no tempo dos próprios infantes e em convivência com estes, Fernão Lopes delineou os contornos fundamentais da imagem dos filhos de D. João I e D. Filipa de Lencastre, na segunda parte de sua Crónica de D. João I. No capítulo CXLVII, o cronista oficial da dinastia avisina no século XV trata “Dos filhos que el rei Dom Joham ouve e em que tempo naceram” e no CXLVIII aborda “Que maneira tinhã em guoardar a obediemcia a seu padre estes ifamtes”. Aos infantes de Avis são associadas características fundamentais que a dinastia pretendia vincular e consolidar à sua representação familiar:

 

E estes Ifamtes que dizemos sairam taees e tam bõos, que de nenhu rei que da Espanha nem mais alomguada terra fose se lê que semelhantes filhos ouvese […]. Os filhos deste nobre Rei imteiramemte tem tall louvor, caa todos lhe foram sempre tam obidiemtes, asy solteiros como casados, que nehuu estaado nem crecimemto de homrra os pode mudar, pouco nem muito, do samto preposito da obediemcia […] nã somente floreceo nestes Ifamtes a virtude da obediemcia acerqua de seu pai, seguumdo dizemos, mas haimda se pode dizer delles o que adur acharees doutros filhos de rei, e he muito de notar, que afora o leall amor que sempre amtre sy ouveram, guardavam reveremcia hus aos outros, per hordem de nacimemto, que numca delles com firme preposito foi apartada per nenhua guissa. Por a quoal rezaom seu padre os amava muito, temdo a Deos em gramde merce de lhe daar tam bemavemturados filhos (LOPES, Fernão. Crónica de D. João I, pt. II, Cap. CXLVII).

 

A crônica elaborada à época da regência do infante D. Pedro (1439-1448) atua, assim como outros discursos e práticas coevas, na criação do mito da Ínclita Geração no reino português, notabilizando valores como o amor paternal e filial, o temor e a obediência dos filhos ao homem que não somente era seu pai, mas também seu rei. Tal obediência hierárquica e amor ilustrados não seriam somente uma referência aos infantes com relação ao seu pai, ou um exemplo para os outros filhos do reino com relação a seus pais, mas seria também modelar para todos os súditos portugueses em reverência a seu monarca, que como “pai” do reino proveria o bem de todos os governados.

Podemos então nos perguntar: por que a alcunha de “ínclita geração” e a mitificação dos infantes foi algo vinculado de forma contundente para essa família real, que assim permanece no imaginário e memória portugueses?  Expoentes medievalistas portugueses como António Henrique de Oliveira Marques e Armindo de Souza demonstraram como o universo das relações de parentesco e gênero na Idade Média portuguesa se configurou a partir não só de acordos de casamento e descendência oficiais, mas também de casos extraconjugais e geração de filhos ilegítimos.  Tal quadro mostrou-se evidente em diferentes momentos da primeira dinastia portuguesa (Borgonha ou Afonsina), como no caso das disputas do futuro rei D. Afonso IV com seu pai D. Dinis e o irmão bastardo Afonso Sanches, bem como o famoso relacionamento amoroso do rei D. Pedro I com a aia Inês de Castro, com a qual gerou três herdeiros naturais: D. João, D. Dinis e D. Beatriz. Após o assassinato de sua amada Inês (encomendado pelo próprio pai do infante, D. Afonso IV), D. Pedro viria a ter mais um filho natural, com D. Teresa Lourenço: D. João, o qual se tornou Mestre de Avis. Após a morte de D. Pedro, seu filho legítimo, D. Fernando, assumiu o trono português, vindo a se casar com a dama portuguesa D. Leonor Teles de Meneses. Com esta, gerou apenas uma filha legítima: D. Beatriz (não há registros de descendentes ilegítimos da parte do rei Fernando), a qual teria casamento selado com o rei de Castela, D. Juan I, através do Tratado de Salvaterra de Magos.

No entanto, com a morte de D. Fernando em 1383 instaurou-se um conflito de sucessão dinástica que envolveu a contestação da regência feminina que fora legada à rainha Leonor Teles, a ausência de um herdeiro masculino no reino, a cobiça do rei de Castela (casado com a única herdeira portuguesa do rei D. Fernando) e a existência de irmãos naturais do monarca. O conflito político e civil se deu entre 1383 a 1385, tendo resultado na ascensão de um bastardo régio ao trono português: D. João I, Mestre de Avis (os filhos de D. Pedro com Inês de Castro se encontravam no reino castelhano no período). O monarca chegou à função através de recurso pouco comum em fins da Idade Média: a eleição régia, que se deu nas Cortes de Coimbra em 1385. A ascensão do rei D. João I deu origem a uma nova dinastia no reino português e rompeu a sucessão hereditária vigente até então. Além de ser um bastardo régio, também era clérigo, enquanto mestre da Ordem de Avis. E se não bastasse, mesmo após a sua eleição, a guerra com Castela ainda continuaria, não reconhecendo este reino a legitimidade da nova monarquia portuguesa. Legitimação (tanto interna quanto externa) e estabilização do poder eram essenciais para D. João naquele contexto e isso se daria aos poucos, culminando num estruturado projeto político-dinástico, ao qual seria ligada a imagem de uma família régia exemplar.

Ainda no ano de 1385, D. João e seus aliados obteriam crucial vitória contra Castela na Batalha de Aljubarrota e no ano seguinte, o monarca português assinaria o Tratado de Windsor com o duque de Lancaster, João de Gand, desposando a filha mais velha deste, D. Filipa, em 1387. Nesse ínterim, também teriam sido requeridas as dispensas papais para que o rei fosse dispensado de sua função na Ordem de Avis, podendo assumir o matrimônio e plenamente a condição régia. Apesar de algumas contestações que a crônica de Fernão Lopes dá a entender quanto às tais dispensas terem ou não sido dadas antes da celebração do casamento, o fato é que D. João I e D. Filipa de Lencastre se tornaram o primeiro casal real da dinastia de Avis e geraram uma vasta prole. Do total de oito filhos, seis chegaram à vida adulta e vieram a exercer diferentes papéis sociais e políticos no quadro da realeza. Pontuemos em ordem cronológica todos os descendentes:

– D. Branca foi a primeira, ainda em 1387. Contudo, viveria poucos meses.
– Em 1390 nasceria o esperado varão, chamado D. Afonso. Mas esse infante teria morrido aos 10 anos de idade causando provável comoção, mas não prejudicando a sucessão, pois em 1391 já havia nascido D. Duarte, que se tornou de fato o sucessor do rei D. João I e ficou conhecido como O Eloquente, devido à sua grande erudição e ponderação.
– Em 1392 nascera D. Pedro, além de ter sido duque de Coimbra, tornou-se conhecido como o viajante infante das Siete Partidas, responsável por muitos contatos diplomáticos importantes para Portugal. Também foi nomeado cavaleiro da Ordem da Jarreteira na Inglaterra pelo tio Henrique IV e recebido o ducado de Treviso do imperador Segismundo da Hungria.
– Em 1394 veio D. Henrique, conhecido como o infante à frente da empreitada das navegações e luta contra os mouros em África, além de ter sido mestre da Ordem de Cristo, duque de Viseu e senhor da Covilhã.
– Em 1397, na sequência de três varões nasceu uma menina, a única descendente feminina da primeira geração a chegar à vida adulta – D. Isabel. Esta viria a casar com Filipe, o Bom, duque da Borgonha, desempenhando importante papel diplomático junto ao marido, sem nunca esquecer ou deixar de intervir a favor de sua família de origem, como veremos.
– Após D. Isabel, D. Filipa continuou a gerar varões para seu rei, concebendo em 1400 (mesmo ano da morte do infante Afonso) o infante D. João, que se tornaria mestre da Ordem de Santiago e condestável de Portugal.
– O último filho concebido pelo casal real foi D. Fernando, nascido em 1402, foi Mestre da Ordem de Avis, como o pai, e morreu em cativeiro mouro alguns anos após a malsucedida expedição portuguesa a Tânger de 1437. Dadas as condições e contexto de sua morte acabaria sendo idealizado como o infante “santo” (mesmo nunca vindo a ser reconhecido como santo oficialmente pelo papado).

 

Painel dos Cavaleiros, possível representação de quatro varões de Avis: D.Pedro, D. Henrique. D. João e D. Fernando 1.

Com a união de D. João I e D. Filipa de Lencastre e a formação de uma nova casa real, a corte portuguesa teria passado por uma moralização dos costumes, que muito se deveu certamente aos costumes ingleses da rainha Filipa, como bem estudou a medievalista Manuela Santos Silva e também apontou Maria Helena da Cruz Coelho. A filha do duque de Lancaster introduziu o rigoroso Rito Sarum no reino luso e junto ao marido teria promovido uma política de casamentos na corte, visando a manutenção da moralidade. D. Filipa ficou conhecida e celebrada nas crônicas régias de Fernão Lopes e de seu sucessor Gomes Eanes de Zurara como uma mulher bastante devota, costume que teria passado aos filhos, como quer dar a crer a imagem oficial da dinastia. Outro dado interessante é o fato de que após o casamento com a rainha, D. João I não teria tido mais filhos ilegítimos (apesar de antes do matrimônio e ainda mestre da Ordem de Avis ter tido um rapaz e uma rapariga com uma dona chamada Inês Pires: D. Afonso, que se tornou 1º duque de Bragança, e D. Beatriz, que casou com o conde de Arundel na Inglaterra). E da parte dos filhos da geração de Avis também não há nenhuma confirmação de descendência ilegítima. Certamente tal preocupação era fundamental para a nova corte e sua legitimação, perante o fato de o rei da nova dinastia ser ele mesmo um bastardo régio. Desse modo, nota-se a intenção da nova realeza de procurar superar essa condição através do exemplo moral da família real, opondo seus costumes aos da realeza da dinastia anterior, que fora marcada pelos casos extraconjugais e geração de filhos naturais.

 

O casamento de D. João I e Filipa de Lencastre no Porto, em 1387 2

Dentro de um projeto político-dinástico estruturado ao longo de décadas, a dinastia de Avis promoveu uma série de ações. Um dos eixos foi a expansão e promoção da luta contra os mouros em África, iniciada em 1415 com a conquista de Ceuta por D. João I e os infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. Destacar-se-ia também uma pensada política de casamentos, conectando Portugal a Aragão através da união de D. Duarte com a infanta D. Leonor; D. Pedro a D. Isabel de Urgell; a infanta D. Isabel de Portugal ao Ducado da Borgonha, pelo enlace com Felipe III; e o infante D. João com a filha do poderoso senhor Nuno Álvares, companheiro de lutas de D. João I e condestável de Portugal até o genro assumir a função.

Distintos meios serviram para consolidar a dinastia e propagandeá-la no reino e fora dele, tais como ritos, cerimônias e também a construção do suntuoso Mosteiro da Batalha – em honra da vitória em Aljubarrota- que foi o local escolhido para ser o panteão régio. No tempo de D. João I e para além dele, o plano do discurso escrito também foi grande meio de propaganda e registro de memória para a casa real. Normas, valores e crenças seriam propagados e perpetuados por meio de crônicas régias (como as de Fernão Lopes, Zurara e Rui de Pina), por tratados morais e políticos escritos por D. Duarte (O Leal Conselheiro) e por D. Pedro (Livro da Virtuosa Benfeitoria) ou mesmo pela hagiografia (como demonstra o tratado escrito pelo frei João Álvares sobre a vida do infante “santo” D. Fernando e seu trágico destino em Fez), dentre tantos outros. Nesse conjunto que se desenvolve durante todo o século XV e mesmo para além dele (como no caso da cronística de Rui de Pina, por exemplo), ver-se-ia a consolidação de uma dada origem e ideologia ligadas à dinastia de Avis.

 

Vista aérea do Mosteiro da Batalha 3

No Leal Conselheiro, por exemplo, D. Duarte destacaria o amor que teria vivido no seio de sua família juntos aos pais e irmãos, ressaltando a obediência plena ao pai (tal como faria também Fernão Lopes em sua crônica). Em carta – compilada no Livro dos Conselhos (conhecido também como Livro da Cartuxa), D. Pedro se dirige ao irmão D. Duarte, que havia acabado de ser levantado rei em 1433, como a pessoa que mais amava no mundo e lhe recomenda continuar a honrar D. João I.

Os membros da primeira geração de Avis procuraram ressaltar a relação vivida com os pais através do grande princípio bíblico de “honrar pai e mãe”, acrescida aos valores da nobreza laica quanto ao pertencimento de linhagem. De D. Henrique (o qual não ficou notabilizado como os irmãos D. Duarte e D. Pedro por obras escritas por si) encontramos um registro desses valores da família régia na carta de aconselhamento que escreveu a D. Duarte sobre fazer ou não a guerra no Benamarim. A defesa da conquista pelo terceiro varão da primeira geração se dá pelo argumento da honra de sua linhagem e “naçom”. A honra da linhagem é expressa especificamente pelo infante avisino da seguinte forma:

 

E dizia nosso senhor deus destes, se honrrardes o padre e madre, vyuereis longamente sobre a terra Honrra o padre e a madre direitamente falando he quando o homem faz taes obras e feitos per que seu padre e lynhagem e naçom som honrrados viuerão longamente sobre a terra porque seu nome fica ates a fym da terra. (MONUMENTA HENRICINA. v. V, doc. 101, pp. 201-204.).

 

Vemos, portanto, o quanto o valor da família e a manutenção da honra era um valor caro aos membros da ínclita geração. No entanto, ficaria tal imagem intacta no decorrer do tempo? Podemos dizer que no século XV certamente não. Em seu testamento datado de 1426, D. João I teria requerido ao filho D. Duarte para que mantivesse a honra de seus irmãos e a união de todos. O segundo monarca de Avis parece ter se empenhado nessa missão, porém, não a pôde cumprir plenamente, visto que ao enviar a expedição portuguesa a Tânger em 1437 acabaria por ter o irmão mais novo capturado pelos mouros. D. Duarte ouviria opiniões e tentaria ponderar a forma mais sensata de obter o resgate de seu irmão, porém, a condição imposta pelos rivais de entregar Ceuta não fora aceita, principalmente pelo irmão D. Henrique.

Por infortúnio, no ano de 1438, a peste levaria D. Duarte e o irmão D. Fernando continuaria cativo. Durante um tempo ainda de impasses, o filho mais novo da primeira geração de Avis acabaria morrendo doente em Fez em 1443, fato que teria gerado profunda comoção interna e externa, causando um primeiro impacto negativo na imagem da família de Avis: os irmãos teriam deixado D. Fernando tempo demais à espera, quase abandonado.  Neste mesmo período pós-morte de D. Duarte, a regência que havia sido incumbida pelo segundo monarca de Avis à mulher, a rainha Leonor de Aragão, foi contestada pelos infantes D. Pedro e D. João, que contaram ao final com o apoio de D. Henrique. Em 1439, D. Pedro foi feito regente do reino e D. Leonor, afastada de seus filhos, incluindo o herdeiro do trono (futuro D. Afonso V), acabaria por morrer refugiada em Castela em 1445.  Todavia, no ano de 1446 o filho de D. Duarte e D. Leonor assumiria o trono, concedendo a supervisão ao tio até 1448. A esta altura, o infante D. João já havia falecido, em 1442, e só permaneciam no reino os infantes D. Pedro e D. Henrique. A sorte acabou por se reverter para o segundo varão de Avis, que passou a enfrentar oposições do sobrinho em meio a intrigas da corte e teve de lidar com a volta dos servidores da rainha Leonor, expulsos do reino com a afirmação da regência petrina.  O contexto se torna insustentável para D. Pedro, retirado no ducado de Coimbra. Ao ter que enfrentar a passagem das tropas do irmão natural, D. Afonso (a quem inclusive fizera duque de Bragança durante a regência) – por suas terras, D. Pedro compreendeu um anúncio de guerra e se preparou para a batalha. A tentativa de mediação de D. Henrique para que o duque de Coimbra se submetesse ao sobrinho, que agora era rei, não resultou. Escolhendo o lado da lealdade régia, o terceiro varão de Avis acabaria por se colocar junto de D. Afonso V, concedendo tropas inclusive para a luta, porém, recusando-se a participar pessoalmente do confronto. De forma trágica, o infante D. Pedro morreria na batalha de Alfarrobeira, em 1449.

A morte do infante das Siete Partidas, conhecido em diversos reinos por suas viagens às cortes europeias durante a juventude, causou grande polêmica na Cristandade, abalando a imagem de D. Afonso V e do tio D. Henrique. Neste contexto, atuaria fortemente a filha da ínclita geração, D. Isabel, direto do ducado da Borgonha, com o envio de cartas e emissários para condenar a ação do sobrinho, que perseguiu inclusive a família do duque de Coimbra. D. Isabel daria asilo para os filhos de D. Pedro e junto ao marido trataria de encaminhar os sobrinhos para casamentos ou posições honrosas. Tal foi o caso de D. Beatriz, que seria dada em casamento a Adolfo de Clèves, senhor de Ravenstein e sobrinho do duque Felipe. Já D. Jaime chegou a se tornar cardeal em Roma. E o filho mais velho e homônimo de D. Pedro chegou a pleitear a coroa de Aragão e teria encomendado no reino Castela a escrita de uma Commemoración breve de los muy insignes y virtuosos varones que fueron desde el magnífico rey Don Juan el primero hasta el muy esclarecido rey don Alfonso el quinto. Esta obra foi destacada por Luís Adão da Fonseca como uma propaganda externa da dinastia de Avis, na qual pela primeira vez convergiram num único discurso as elegias dos diferentes membros da família real portuguesa.

D. Isabel da Borgonha também atuou pela busca dos restos mortais e ossadas do irmão mártir de Fez, colaborando para que seu velório e enterro fossem realizados com toda a honra no Mosteiro da Batalha. D. Henrique levaria as ossadas do irmão ao túmulo em grande cerimônia no ano de 1451. Do mesmo modo, a duquesa também atuou junto ao sobrinho D. Afonso V e ao infante D. Henrique para que o infante D. Pedro também fosse enterrado dignamente no panteão régio. Em 1455, o Navegador conduziria à sepultura batalhina os ossos do irmão que havia deixado perecer na batalha real de 1449. Deste modo, ainda no governo afonsino buscou-se resgatar a memória familiar da primeira geração. Foi neste contexto que D. Henrique também mandou frei João Álvares – secretário do infante D. Fernando que conseguiu voltar a Portugal – escrever o tratado sobre a vida do infante “santo”, colaborando para a construção da imagem santificada do mártir de Fez e também para sua própria reabilitação de imagem. A saga da primeira geração de Avis se encerraria entre as décadas de 1460-1470. No ano de 1460 o infante D. Henrique faleceria e seria enterrado com toda pompa e glória junto aos outros membros da família na capela-mor do Mosteiro da Batalha. O infante de Avis que mais viveu, além de ter concentrado considerável patrimônio e exercido grande influência no reino português acabou também por ser o mais conhecido e cultuado ao longo da história portuguesa.  No ano de 1471 faleceu a última descendente da primeira geração de Avis, D. Isabel, que pelo costume foi sepultada no ducado da Borgonha, terra de seu marido.

 

Retrato de D. Isabel de Portugal, Duquesa da Borgonha 4

A ausência da infanta no reino para além de outros fatores acabaria por não legar uma memória tão forte desta integrante da primeira geração de Avis no reino português. Podemos dizer que D. Isabel é a menos conhecida dos ínclitos infantes.

 

Estátuas dos cinco varões da primeira geração de Avis 5

À exceção de D. Isabel, no Mosteiro da Batalha seriam reunidos todos os membros da primeira geração de Avis junto ao casal fundador, base da mitificação da aura familiar e de sua sustentação ao longo do tempo, prova da eficácia da propaganda e memória avisinas geradas através desse núcleo inabalado de exemplaridade constituído por D. João I e D. Filipa de Lencastre.

 

Túmulo conjugal de D. João I e D. Filipa de Lencastre no Mosteiro da Batalha, rodeado pelos túmulos dos infantes D. Pedro, D. Henrique, D. João, D. Fernando e outros membros da família real avisina 6

 

Referências

1 GONÇALVES, Nuno. Painel dos Cavaleiros. Painéis de São de São Vicente de Fora. c.1470. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal. [O Painel dos Cavaleiros representaria quatro infantes de Avis: D. Pedro (de cinto cruzado no peito, símbolo da Ordem da Jarreteira); D. João (de vermelho com a espada e a cruz no peito); D. Fernando (de negro, com barba e cabelos longos); D. Henrique (o cavaleiro ajoelhado à frente, vestido de roxo.). O Navegador foi o único dos infantes a viver até época próxima à composição dos Painéis, por isso apareceria mais velho que os irmãos na representação. A cor roxa de suas vestes representaria a vergonha proveniente do episódio de Alfarrobeira].
2 Iluminura presente no volume III de Chroniques de France et d’Angleterre, de Jean de Wavrin. Bruges, final do século XV. British Library, Londres, Inglaterra.
3 Mosteiro da Batalha, Vila da Batalha, Portugal. Fonte (site oficial do Mosteiro da Batalha): <http://www.mosteirobatalha.pt/pt/index.php?s=galeria&galeria=42>.
4 Pintura a óleo. Atelier de Roger van der Weyden. 1450. Paul Getty Museum. Los Angeles, USA.
5 Monumento à Ínclita Geração, por Laureano Ribatua (1938-). Ramalde, Porto, Portugal. [Estão representados da esquerda para direita os infantes D. João, D. Henrique, D. Duarte, D. Pedro e D. Fernando. A grande guardiã da memória da primeira geração de Avis no século XV, D. Isabel, acabou por não ser representada pelo escultor como uma das integrantes da Ínclita Geração].
6 Capela do Fundador. Mosteiro da Batalha. Vila da Batalha, Portugal. Foto tirada pela autora em abril de 2015.

Fontes

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D. DUARTE. Leal Conselheiro. Prefácio de Afonso Botelho. Edição crítica, introdução e nota de Maria Helena Lopes de Castro. Colecção Pensamento Português, s/l, 1998.

________. Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte (livro da cartuxa). Edição diplomática. Introdução de João José Alves Dias. Prefácio de António Henrique de Oliveira Marques. Lisboa: Editorial Estampa, 1982.

LOPES, Fernão. Crónica de D. João I. Edição Preparada por M. Lopes de Almeida e A. de Magalhães Basto. Segundo o códice inédito CIII/1-10 da Biblioteca Pública de Évora confrontado com o texto impresso em 1644 e versões quinhentistas da mesma crônica existentes nas bibliotecas da Universidade de Coimbra e Municipal do Porto. Porto: Livraria Civilização, 1949. v. 2.

MONUMENTA HENRICINA. Direção, organização e anotação crítica de Joaquim Dias Dinis. Coimbra, 1960-1969. 16v.

D. PEDRO, Infante. Livro da Virtuosa Benfeitoria. In: Obras dos Príncipes de Avis. Introdução e revisão de Manuel Lopes de Almeida. Porto: Lello & Irmãos editores, 1981.

ZURARA, Gomes Eanes de. Crónica da Tomada de Ceuta. Introdução e notas de Reis Brasil. Lisboa: Publicações Europa-América, 1992.

Bibliografia:

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________. Memória e propaganda legitimadora do fundador da monarquia de Avis. In: NOGUEIRA, Carlos Roberto. O Portugal Medieval: Monarquia e Sociedade. São Paulo: Alameda, 2010.

FONSECA, Luiz Adão da. D. João II. Reis de Portugal. Mem Martins: Temas e Debates, 2011.

OLIVEIRA e COSTA, João Paulo. Henrique, o Infante. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2013.

RODRIGUES, Ana Maria S. As tristes rainhas. Leonor de Aragão, Isabel de Coimbra. Lisboa: Círculo de Leitores, 2012.

SILVA, Manuela Santos. Filipa de Lencastre. A rainha inglesa de Portugal. Lisboa: Temas e Debates, 2014.

 

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