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O saramugo e o Projeto que o pretende conservar

O saramugo em Portugal

O saramugo (Anaecypris hispanica) é um peixe da família dos ciprinídeos que mede apenas 7cm de comprimento. De corpo esguio e comprimido lateralmente, apresenta reflexos prateados, por vezes rosados, e pontuações negras dispersas nos flancos. Com uma longevidade máxima de 3 anos na natureza, atinge a maturidade sexual no final do primeiro ano de vida e realiza várias posturas, entre abril e maio, não ultrapassando a centena de ovos em cada uma delas. Alimenta-se de pequenos invertebrados bentónicos, de zooplâncton, plantas, algas e também de detritos. Habita cursos de água de carácter intermitente, isto é, no inverno levam muita água e no verão ficam reduzidos a pegos – locais mais fundos que mantêm água. O seu ciclo de vida desenvolve-se em grande parte nos troços fluviais que apresentam correntes moderadas a fortes, e por isso designa-se por espécie reofílica. Ocorre preferencialmente em pequenos cursos de água estreitos (<20m) e pouco profundos (<60cm), com substrato grosseiro e vegetação aquática imersa e ao longo das margens. Trata-se de uma espécie endémica do sul da Península Ibérica, não ocorrendo em nenhum outro local do mundo, e em Portugal com presença confirmada apenas na bacia do rio Guadiana.

A nível nacional as populações deste peixe têm apresentado um declínio continuado. Em 2005, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, foi estimado um efetivo populacional superior a 10.000 indivíduos maduros. Desde então, estima-se que a população tenha sofrido uma redução de cerca de 80% num período de dez anos. Atualmente, nalgumas subpopulações o número de efetivos já estará abaixo do limiar de sobrevivência da espécie.

O caracter continuado destas tendências negativas, a que acresce a diminuição da área de distribuição em território nacional, faz com que o saramugo esteja classificado em Portugal como “Criticamente em Perigo”.

 

Saramugo (foto de Carlos Carrapato)

 

Saramugo (foto de Natasha Silva)

 

As ameaças à sua sobrevivência

As ameaças que assolam o saramugo são no fundo as mesmas que atingem a maioria dos cursos de água do nosso país. Destaca-se a degradação da qualidade da água e do habitat em geral que são na maioria das vezes resultantes da ação direta ou indireta do Homem, quer por via da contaminação da água por resíduos (urbanos, industriais, agropecuários), quer por via da sobre exploração de recursos (retenções e captações de água, extração de inertes). Acresce a sobre exploração da área envolvente aos sistemas aquáticos de água doce, resultante da atividade agrícola ou pecuária, que conduz a uma maior pressão sobre o uso do solo e da água, com consequência negativas para os ecossistemas ribeirinhos. A expansão de espécies piscícolas exóticas constitui também uma ameaça à sobrevivência do saramugo e restantes peixes nativos pois provocam um aumento da competição pelos mesmos recursos (alimento, oxigénio e refúgio) a par da predação que é exercida sobre os seus ovos, juvenis e peixes adultos.

 

Exemplares de peixes exóticos (achigã, chanchito e perca-sol)

 

Captação de água (foto Aqualogus)

 

O que está a ser feito em prol da sua conservação

O Projeto LIFE Saramugo, coordenado pela LPN- Liga para a Protecção da Natureza e cujos parceiros são o ICNF, a Universidade de Évora e a Aqualogus – Engenharia e Ambiente, Lda., teve início em julho de 2014 e desde então executaram-se várias ações visando a sua conservação e do seu habitat, em toda a área de distribuição historicamente conhecida de saramugo na Bacia do Guadiana, isto é, nos Sítios de Importância Comunitária (SIC) de S. Mamede, Moura/Barrancos e Guadiana.

Ao nível da bacia do Guadiana, realizou-se um levamento e atualizaram-se os fatores de ameaça, nas sub-bacias onde a espécie foi detetada (Ardila, Chança, Foupana, Vascão, Odeleite). Estudou-se o impacte do alburno (um peixe exótico da mesma família que o saramugo) nas populações de saramugo e realizaram-se estudos sobre mecanismos de controlo de dispersão dessa espécie exótica.

Relativamente às ações de gestão concreta de habitat: removeram-se perto de 20 000 indivíduos de peixes exóticos na ribeira do Vascão; na mesma ribeira desassoreou-se um pego onde é conhecida a ocorrência de saramugo com o objetivo de aumentar a disponibilidade de água para a vida aquática durante o verão. Brevemente terão início ações de remoções de canavial e plantação de vegetação autóctone, assim como ações que visam limitar o acesso do gado às linhas de água, para melhorar a qualidade do habitat ribeirinho.

 

(foto de Natasha Silva)

 

(foto LPN)

Por forma a dar a conhecer a espécie e as problemáticas que enfrenta realizaram-se várias atividades de educação ambiental, que contaram até ao momento com mais de 1 100 alunos, desde o pré-escolar ao ensino superior, na área de intervenção do Projeto. Nas várias ações realizadas para o público em geral participaram mais de 200 pessoas.

 

Educação ambiental (foto LPN)

 

Educação ambiental (foto LPN)

 

O principal resultado previsto para este Projeto é a melhoria da situação populacional do saramugo, na bacia portuguesa do Guadiana, através de um incremento importante da qualidade do seu habitat de ocorrência, revertendo a tendências negativas verificadas nos últimos anos. Contudo, o período de vida do LIFE Saramugo é curto para perceber os impactes positivos que poderá ter sobre a espécie. A monitorização das ações dirigidas ao habitat do saramugo irá fornecer-nos indicações, no imediato, sobre as melhorias produzidas no seu meio, mas o impacto nas populações de saramugo só se verificará a médio-longo prazo. Esperamos ainda demonstrar que as ações desenvolvidas possam ser reproduzidas noutras áreas de ocorrência da espécie, quer seja em Portugal quer seja em Espanha.

Saiba mais sobre o LIFE Saramugo em http://www.lifesaramugo.lpn.pt/pt e torne-se num guardião deste pequeno peixe de água doce, aderindo à Rede de Custódia – Guardiões do saramugo.

 

(foto LPN)

 

(foto LPN)

A Rede de Custódia para a conservação do Saramugo (Anaecypris hispanica) em Portugal pretende envolver na conservação desta espécie e do seu habitat todos os particulares e entidades com intervenção, direta ou indireta, na área de distribuição do saramugo, particularmente a incluída nos Sítios de Importância Comunitária (SIC) de São Mamede, Moura/Barrancos e Guadiana.

Esta iniciativa pretende englobar todos os particulares e entidades com intervenção na área de distribuição do saramugo, e não só, na conservação deste peixe ameaçado e do seu habitat, reunindo e reconhecendo todos os interessados em aprofundar o seu conhecimento sobre o saramugo e que pretendam contribuir para a sua preservação, usufruindo e potenciando a sua presença no território.

Esta rede dotará os envolvidos de ferramentas que permitam a compatibilização das suas atividades com a conservação deste pequeno ciprinídeo, criando ainda uma plataforma de comunicação para promover a conservação da espécie e do seu habitat durante e após o término do projeto.

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